quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Como perder uma chance de ser feliz

Acordei com meu corpo ainda achando que era noite. O despertador silenciava e alguns fracos raios de luz haviam encontrado o caminho para meu quarto pelas frestas da cortina. Mais uma vez, a preocupação antecipou a hora de levantar.
Encarei o teto por alguns minutos. Derramadas ali, minhas angústias manchavam aquela superfície branca e lisa de gesso. Elas escorriam... e pingavam em mim.
Rolei para o lado. Bem que esses problemas podiam grudar nos lençóis e soltar de vez de meu corpo cansado.
Mas não. Eles levantaram comigo e acompanharam meu cambaleado sonolento até a cozinha.
O cheiro do café perfumava aquela manhã e a calma com que eu preparava o desjejum me fazia acreditar que estava vivendo as primeiras horas de um descompromissado sábado. Era bom fingir que acreditava naquilo.
O dia se exibia por trás da janela. Flertei por alguns segundos com aquele exuberante céu. Indeciso, ele ainda não havia resolvido que cor preencheria sua imensidão. Meu coração apertou.
 Senti vontade de lamentar.
A poucas horas dali, uma cadeira me esperava no escritório. Todo dia, a necessidade me algemava àquele lugar.
Senti meus problemas me cutucarem no ombro. Havia esquecido por valiosos instantes que eles estavam ali.
“Que inconveniência”, pensei, a testa franzida e o peito cheio de reclamações.
Fechei a cara e o dia. Enquanto me preparava para sair, coloquei o guarda-chuva na bolsa.


24 comentários:

  1. A rotina ofusca o olhar sobre as coisas. Mas vc conseguiu atravessar essa cortina embaçada de coisas flácidas do dia a dia. Beijos!

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  2. "Derramadas ali, minhas angustias manchavam aquela superfície branca e lisa de gesso." - MUITO BOM ;)

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  3. Senti vontade de dizer isso: "Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou mas temos muito tempo, temos todo o tempo do mundo...Sempre em frente..."

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  4. "Acordei com meu corpo ainda achando que era noite."
    Todo dia é assim :/
    Amei o texto, parabéns :))

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  5. Como já foi dito "a rotina ofusca a beleza"! Adorei, novamente, querida Larissa!
    Maria Olimpia J.Mancini Netto

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  6. Li com muito prazer. Parabéns, Larissa!

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  7. Larissa Acosta é o nome da cronista que surpreende com publicações que eu diria existenciais. É aluna de Gilson Caroni Filho, professor de sabedoria jornalística. Uma cronista hoje é uma raridade. Isso se levarmos em conta que tivemos figuras memoráveis como Rubem Braga, Fernando Sabino, Antônio Maria, Nélson Rodrigues, José Carlos Oliveira, o próprio Guilherme Figueiredo, autor de A RAPOSA E AS UVAS, magnífica peça teatral, ficou um ano em cartaz em Moscou. Sérgio Porto. Hoje Veríssimo, Afonso Romano de Sant'Ana (poeta e cronista). Cada qual com seu estilo, seu romance de vida, de cotidiano e de existência. É curioso, mas o desaparecimento de boa parte dessas pessoas tornou o País mais sofrido no saber, no perceber, por exemplo, completamente diverso de Larissa mas indispensável, o retrato de cada dia em O ROMANCE POLICIAL DE COPACABANA, de Maria. Larissa vem no seu tempo. Como um sabiá que Rubem transformou em editora que gerou a fantástica possibilidade de cada um se descobrir no HOMEM NU de Sabino.

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  8. ossa? parabéns Larissa..Talento não te falta ..que Deus te ilumine cada vez mais....Parabéns! <3

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  9. Larissa, li seu texto saboreando-o, lentamente, e gostei. Vc escreve bem, vá enfrente. Parabéns! Abraços!

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  10. Larissa, Bahita é meu apelido, Meu nome é Maria Rodrigues

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Eu não fechei, nem a cara, nem os olhos para o que li, Larissa, eu não poderia deixar de me permitir a chance de ser feliz, ao ler esse texto lindo, super legal, prenhe de poesia...fui levado a ele, por vias transversas e adorei o fato de ter sido desviado do rumo que estava seguindo...continue nos brindando com coisas assim, nossos corações e mentes, agradecem.

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  13. Um breve texto que conseguiu me tocar no âmago pela sua verdade.
    Denso, expressivo e sensível.
    Curto e grosso! Não péra: curto e fino!
    Parabéns

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  14. Mais um texto muito bem escrito. Parabéns, menina! Gosto de te ler...

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  15. Muito bom!!! Um pre/texto para uma boa prosa poética, parabéns!!!

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  16. Realmente, é terrível a necessidade nos algemar a alguma situação. Ótimo texto!

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  17. Adorei esse texto: profundo sem ser intelectualoide, delicado sem ser piegas. Você é uma escultora de textos. Aposto que muita gente vai se identificar com o que você escreveu. Para um escritor, isso é fundamental!

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  18. Todo dia, a necessidade me algemava àquele lugar..
    Compartilho deste seu sentimento.....a necessidade também me algema.....Sua descrição foi perfeita...é exatamente assim que me sinto. Parabéns pelo ótimo texto

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  19. Li com gosto e apreciei o sabor. Vou colá-lo no meu blog de recortes, para que outros possam se deliciar com a beleza do dito em poucos palavras...

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  20. Obrigada por todos os comentários. Voltem sempre :)

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  21. Delícia de crônica, rica de imagens e metáforas que a tornam universal. Não há como deixar de se sentir tocado, alcançado pelas situações que Larissa tão bem descreve como quem conta um sonho.

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