quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Era 7 de outubro

Aquele som invadia minha sala. Tomava o lugar de uma monotonia habitual, que costumava preencher os espaços entre mesas, cadeiras, computadores e cabeças.

Aquelas vozes batiam com fervor às janelas fechadas das margens verticais da Avenida Presidente Vargas. Elas clamavam pelo silêncio conformado de todos nós.

Porém, já eram 18h. Arrumei minhas coisas e levantei.

De saída, vi que as pessoas compartilhavam sua preocupação sobre como voltariam para casa. Ninguém parecia escutar o que diziam as vozes da rua. O canto que vibrava o ar frio daquele início de noite era ali só mais um barulho da cidade.

Eu estava no hall, encarando aquelas portas de madeira, esperando que uma se abrisse e me levasse direto ao fim do expediente de mais um dia de trabalho.  Mas aqueles gritos haviam me seguido. Atravessaram portas e paredes e também minha pele e ossos. Ecoavam dentro de mim. Aflita, entrei no elevador.

A rua estava repleta de pensamentos e palavras. Enquanto caminhava contra aquela corrente de gente, quis me deixar levar a maior parte do tempo. Olhar para aqueles olhos sedentos de solidariedade era como encarar um espelho: eu tampouco entendia porque não me juntava àquela massa cidadã.

Decepcionada, segui meu rumo. Sabia que mais tarde aquelas pessoas teriam que encarar a PM e suas armas, que ferem o corpo e a dignidade de quem luta pelo coletivo (e isso inclui os próprios policiais). Mas continuei dando, um a um, meus passos egoístas em direção à Estação Uruguaiana.

Entrei no metrô. O som ali não tinha a solidez das ruas: eram fragmentos individuais, dispersos, pessoais. Eram muitas pessoas, mas apenas pessoas. Sem força, sem união, ligadas apenas pelo desejo de chegar logo a suas casas. E ali estava eu.

Sentei triste e acanhada no trem. Empunhei minha educação e escrevi, li e me informei. Lembrei-me de cada palavra de progresso, cada lição que já levei das salas de aula por onde passei, de todo o esforço e nobreza daqueles que dedicam a vida a construir uma sociedade melhor.

Meu grito não havia se juntado ao dos professores naquela noite. Mas ali, no meio daquelas dezenas de pessoas que acompanhavam o balanço do vagão, eu me importava. Eu pensava e refletia.

E novamente, aquelas vozes invadiram o espaço. Dessa vez, porém, emanavam silenciosamente de dentro de mim.

Com a culpa dos omissos pesando sobre meus ombros, me escorei na janela escura do trem. Sentada, adormeci.

36 comentários:

  1. Lindo o texto, direto e forte como deve ser a escrita. Parabéns!!!

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    1. ""Acordei com meu corpo ainda achando que era noite." que bela imagem para falar do cansaço e da necessidade de dormir ainda um pouco mais ...Parabéns!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Parabéns Larissa Acosta, sempre brilhante nas suas crônicas!!!

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  3. Uma crônica com poesia repleta de luta e coragem. Belíssima.

    Laerte Braga

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  4. NUNCA, mas NUNCA deixe de escrever como você escreve. Parabéns.

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  5. Um texto bem reflexivo. Parabéns a autora.

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  6. Lindo texto, muito reflexivo, de uma sutileza sublime... Parabéns.

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  7. Parabéns pela solidária homenagem aos nossos professores e pela sensibilidade do texto.

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  8. Maravilhoso! Simplesmente, isso. Levou-me a recordar uma imagem de propaganda que muito me tocou - esqueço agora qual foi a agência que produziu. É sobre o poder da leitura em dispersar maus pensamentos. Um garotão meio mal encarado entra num vagão, quase vazio, e lá já está uma jovem senhora, grávida, sentada; e, além dela, somente uma velhinha de lenço na cabeça, totalmente dispersa em pensamentos. A jovem senhora fica com medo. Mais se apavora, quando o jovem mete a mão por sob a jaqueta, olhando-a firmemente. De repente, ela saca... um livro, e o começa a ler. Desfaz-se toda aquela atmosfera pesada, e vem a mensagem da publicidade a finalizá-la.
    Seu texto me levou pro seu ambiente. Parabéns!

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  9. Lindíssimo, às vezes nos sentimos tão impotentes que nos omitimos! Parabéns pelo texto!

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  10. Maravilhoso, parabéns menina Larissa, um texto profundo, direto e objetivo. Continue escrevendo suas crônicas você te4m um belo futuro.

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  11. Muito bom! Parabéns, Larissa! Continue assim criativa! Você vai longe...

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  12. MUITO BOM! Exatamente como nos sentimos quando não podemos estar lá, participando de algo tão importante para o coletivo!

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  13. sobre "a culpa dos omissos", penso que é importante jamais omitir-se, mas também é importante o compromisso sempre renovado para a ação, com conhecimento da realidade e engajamento...sem voluntarismos!

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  14. sobre "a culpa dos omissos", penso que é importante jamais omitir-se, mas também é importante o compromisso sempre renovado para a ação, com conhecimento da realidade e engajamento...sem voluntarismos! :)

    Fernanda

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  15. Continue a nos surpreender, Larissa. Belo texto.

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  16. Bonito texto, Larissa! Com ele, volto a um tempo que também foi meu.

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  17. Seu texto é reluzente, Larissa!

    Parabéns pela extraordinária capacidade expressiva e pela perspectiva engajada e solidária com que pensas o mundo.

    Um forte abraço!

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  18. Parabéns, Larissa! Viajei com teu texto.Melhor, vivenciei ... Espero ler outros...e sempre.
    Abraços...

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  19. Você tem o mais importante, a empatia pelo outro e pelos sentimentos que te rodeiam. Parabéns!

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  20. Parabéns, excelente texto! Uma cronista talentosa!

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  21. Muito bom, Larissa! Cheguei aqui graças a uma dica do Gilson Caroni Filho. Aguardo os próximos.

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  22. O Gilson tem razão, Larissa. Você é dona de um estilo especialíssimo ! Torço para que editores inteligentes descubram o seu talento rapidamente!

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  23. Larissa, parabéns, um belo texto , feito com emoção , coisa de coração comprometido, continue assim

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  24. Muito obrigada a todos que comentaram e leram meu texto. Fico muito feliz com o carinho de vocês. Voltem sempre!

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  25. Larissa, cheguei ate voce por indicacao do mestre Gilson Caroni. Vindo de quem veio, a indicacao ja valia a leitura. Quando vi, ja tinha devorado alguns textos seus. Na verdade, Eles me devoraram, suas palavras tem o dom de dancar com as nossas emocoes, algumas conviccoes, sempre de encontro com a reflexao de um individuo comprometido com o mundo ao seu redor. Seja ele real, duro, critico, ludico ou poetico. Totalmente sensorial. Sensivel. Nao a toa, nosso mestre querido vem divulgando seus textos. Lindos...continue assim. Parabens. Um grande beijo, Cris Dias.

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  26. Gosto do seu texto, Larissa. Do se coração. Coisa de escritor que reconhece escritor. Faz bem a gente...

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